Jornal Saúde & Lazer: Cirurgia de obesidade
Métodos menos invasivos ganham espaço entre especialistas americanos, mas ainda são pouco praticados no Brasil
Utilização de métodos menos invasivos tem crescido em todo o mundo. Apesar disso, brasileiros escolhem pouco essas técnicas. Maior rapidez no resultado seria o motivo da preferência. Pesquisas científicas internacionais mostram que a escolha por técnicas minimamente invasivas, que exponham menos o paciente e reduzam o tempo de recuperação, são uma tendência que vem se concretizando ano após ano em todo o mundo. Já o Brasil segue rejeitando esta propensão em um dos procedimentos cirúrgicos de maior crescimento no mundo: a intervenção bariátrica.
Enquanto técnicas que cortam o estômago e desviam o intestino dominam os centros cirúrgicos que realizam tal procedimento, método como Banda Gástrica Ajustável é indicado a pouco mais de 5% do total de procedimentos.
Realizada por videolaparoscopia e com duração de aproximadamente 40 minutos, a colocação da Banda Gástrica Ajustável exige recuperação de seis a 12 horas para que o paciente submetido à intervenção tenha alta hospitalar e, em cerca de uma semana, retome suas atividades cotidianas. Neste procedimento, não se viola a integridade da anatomia nem fisiologia do trato digestivo – que permanece intacto. Desta forma, consegue-se que o paciente não apresente deficiências nutricionais ou carências vitamínicas no pós-operatório.
O endocrinologista australiano John Dixon, um dos maiores especialistas e pesquisadores sobre obesidade no mundo, revela que, na Austrália, cerca de 95% das cirurgias realizadas são de Banda Gástrica, inclusive com subvenção do Estado. “Primeiramente, essa técnica reduz o risco de complicações e mortalidade em 10 vezes quando comparado ao bypass (técnica tradicional de corte e grampeamento). Além de a técnica ser mais segura, com bons resultados para o paciente, é também motivo de redução de despesas do governo e por isso há forte investimento nesta área”, revela Dr. Dixon.
Nos Estados Unidos, a procura de pacientes pelo método também cresceu. Segundo Dr. Mathias A. L. Fobi, diretor médico do Centro de Cirurgia e Tratamento para Obesidade da Califórnia, a previsão é de que, em 2009, cerca de 50% das intervenções bariátricas registradas no país sejam com Banda Gástrica Ajustável.
Para especialistas brasileiros, as principais justificativas para a não adesão da técnica seria: o fato de a Banda exigir maior dedicação, tanto por parte do paciente como também da equipe médica que o acompanha; além de o método trazer resultados de forma mais paulatina.
“A Banda Gástrica exige uma manutenção. O paciente precisa ir à clínica com freqüência, passar por avaliação de equipe multidisciplinar e fazer os ajustes da prótese, de preferência com controle radiológico, para que tenhamos um ajuste mais preciso. É muito difícil que todo este acompanhamento seja feito em um consultório comum, onde, muitas vezes, não há nutricionista, psicóloga, entre outros profissionais que fazem parte da equipe de apoio necessária para esse tratamento, atendendo em conjunto com o cirurgião”, afirma Dr. Denis Pajecki, diretor do departamento de cirurgia da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica).
Segundo o médico, a Banda possui particularidades em relação aos outros procedimentos para tratamento da obesidade. “A grande vantagem é o fato de ser reversível”, afirma. E este fato é especialmente importante nos dias atuais, quando a expectativa de vida aumenta e os procedimentos são feitos cada vez mais cedo. “Mas, por outro lado, depende muito de que o paciente siga corretamente a dieta indicada no pós-operatório. A realização de ajustes bem feitos também é fundamental e a perda de peso ocorre de maneira gradativa, atingindo seu ápice após dois ou três anos da intervenção”, diz o cirurgião.
A parte psicológica tem interferência direta no resultado do procedimento e, por isso, o acompanhamento de um especialista é muito importante. “Quando iniciamos o trabalho psicológico no pré-operatório, em muitos casos, nos deparamos com pacientes que vivem apenas em função da obesidade, que é a única coisa a preencher a vida dele naquele momento. Tudo o que faz é falar sobre as dificuldades que enfrenta. É bastante comum ele deixar de sair, abandonar as amizades e o convívio social.
Temos de trabalhar isso intensamente, já que, após a cirurgia, sua rotina irá mudar completamente e é necessário que esteja preparado, pois, caso contrário, a intervenção pode não surtir o resultado desejado”, relata a psicóloga Dra. Zélia Maria Ferreira. Segundo ela, outro problema bastante comum é o paciente transferir suas frustrações para outro tipo de compulsão. “Já que não consegue mais comer exageradamente, pode passar a consumir bebidas em excesso, vicia-se em jogo, sexo, tabagismo ou qualquer outro tipo de compulsão. Esses problemas mostram o quão importante é o trabalho psicológico para este tipo de cirurgia”, revela.
Obesidade cresce e ganha atenção de outros especialistas
Recente pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde nas 27 capitais do país constatou que 43,3% dos moradores destas cidades estão com excesso de peso. A nutricionista Fernanda Ferreira Correa defende que os hábitos da vida moderna são os grandes responsáveis pelo constante e crescente aumento no número de obesos.
“O velho hábito de almoçar em casa foi abolido há muito tempo. Hoje, as pessoas comem nos famosos ‘fast foods’, lugares de comida rápida, industrializada e altamente calórica. Outro fator que influencia negativamente é ficar muitas horas sem comer, o que é bastante comum e maléfico ao organismo. A maioria das pessoas alega não dispor de tempo para se alimentar corretamente. Sendo assim, o que dizer da prática de exercícios físicos? Alimentando-se mal e levando uma vida sedentária, invariavelmente o resultado é ganho de peso. É preciso mudar a rotina e adquirir novos hábitos, como comer de três em três horas, por exemplo, de forma balanceada, além de reservar pelo menos meia hora por dia para alguma atividade física”, conclui Dra. Fernanda.
Independente da questão estética, a saúde é o que importa para o médico indicar ou não a cirurgia bariátrica – pois o excesso de peso leva a doenças, muitas delas graves. Sendo assim, além do cirurgião, profissionais de outras especialidades também passaram a conviver com o método. “Todos sabem que, na imensa maioria dos casos, a obesidade está relacionada a diversas outras doenças como diabetes, hipertensão e distúrbios metabólicos.
Com isso, os procedimentos invasivos em obesidade passaram a fazer parte do dia-a-dia da cardiologia, já que, em alguns casos, a obesidade torna-se irreversível e as chances de o paciente sofrer um problema cardíaco são grandes. Para um indivíduo com obesidade mórbida e outras doenças associadas, que possui uma série de dificuldades, quanto mais simples e rápida for a cirurgia e a recuperação dele, melhor”, finaliza o cardiologista Dr. Walter Moras.
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Fonte:
Saúde & Lazer
Data:
16/4/2009
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